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Câncer de mama em mulheres negras: o que os dados brasileiros mostram, e o que eles não dizem

Quatro números diferentes circulam como se fossem o mesmo. Aqui está o que cada um mede, e o que a evidência brasileira aponta sobre acesso e tempo até o diagnóstico.

Marcio Moreira, Estrategista de conteúdo e SEO do blog da Clínica PrecioreMarcio MoreiraEstrategista de conteúdo e SEOPublicado em 29 de julho de 2026
Três mulheres negras de idades diferentes, saúde da mama e acesso ao diagnóstico no Brasil

Câncer de mama em mulheres negras: o que os dados brasileiros mostram, e o que eles não dizem

Neste artigo você vai descobrir:

  • De onde vem cada um dos quatro números que circulam sobre o tema, e o que cada recorte realmente mede
  • Por que a incidência registrada é maior em mulheres brancas e o desfecho é pior em mulheres negras
  • O que mudou na recomendação de mamografia do Ministério da Saúde em setembro de 2025
  • Quais prazos a lei brasileira garante e o que fazer quando o exame demora

Qual é o número mais sólido: a sobrevida em cinco anos é 10 pontos menor entre mulheres negras

Entre 59.811 mulheres que iniciaram tratamento para câncer de mama no SUS, a sobrevida em cinco anos foi de 74% entre mulheres brancas e 64% entre mulheres negras. A diferença é de 10 pontos percentuais, segundo coorte nacional publicada em The Lancet Global Health em 2024 (Lemos LLP e colaboradores).

Todas essas mulheres já estavam dentro do tratamento quando foram acompanhadas, e esse detalhe é o que torna o dado tão precioso. A coorte reuniu mulheres com estágios I a IV que começaram o tratamento entre janeiro de 2008 e novembro de 2010, com seguimento até 31 de dezembro de 2015. Ou seja: todas já haviam passado da porta de entrada do sistema.

Mesmo assim a diferença apareceu. No mesmo estudo, o risco ajustado de óbito foi 24% maior entre mulheres negras sem terapia hormonal (HR 1,24; IC 95% 1,16 a 1,34) e 25% maior entre as que usavam terapia hormonal (HR 1,25; IC 95% 1,14 a 1,38). A diferença de sobrevida teve significância estatística robusta (p menor que 0,0001).

Se a desvantagem persiste depois do início do tratamento, ela não se explica apenas por quem chega ou não chega ao serviço. Ela é um indicador de percurso assistencial: o que acontece entre a primeira suspeita, o exame, o laudo, a cirurgia e as sessões seguintes.

O estudo teve participação da UFMG e foi assinado por Lemos LLP, Souza MC, Guerra Junior AA, Piazza T, Araújo RM e Cherchiglia ML.

O que a coorte mediu, e o que ela não mediu

Aqui é preciso separar com cuidado. A coorte mediu sobrevida depois do início do tratamento. Ela não mediu incidência, então não diz quantas mulheres adoecem no país. E não mediu mortalidade populacional, então não diz quantas morrem no Brasil inteiro.

Há também uma limitação de composição que é honesto registrar. Das 59.811 mulheres, 37.318 eram brancas (62,4%), 18.779 pardas (31,4%) e 3.714 negras (6,2%). O grupo de mulheres negras é o menor da amostra, o que amplia os intervalos de confiança sem invalidar o achado.

Os quatro números que circulam sobre o tema medem coisas diferentes

Pelo menos quatro números distintos são citados no debate público como se fossem o mesmo. Eles medem sobrevida, risco ajustado de óbito dentro de uma coorte, risco relativo em base institucional e razão entre taxas de mortalidade em registros populacionais. A magnitude muda porque o recorte muda, e não porque algum deles esteja errado.

Número O que ele mede de fato Fonte e ano
10 pontos percentuais a menos de sobrevida em 5 anos, 64% contra 74% Sobrevida de mulheres que já iniciaram tratamento, coorte nacional de 59.811 mulheres, 2008 a 2015 Lemos LLP e colaboradores, The Lancet Global Health, 2024
24% a 25% mais risco de óbito Risco ajustado de morte dentro da mesma coorte, com e sem terapia hormonal Lemos LLP e colaboradores, The Lancet Global Health, 2024
57% mais chance de morrer entre mulheres pretas, e 10% entre mulheres pardas Risco relativo de óbito por câncer de mama na comparação com mulheres brancas INCA, 2024
3,83 vezes maior taxa de mortalidade Razão entre taxas de mortalidade por raça e cor em registros de base populacional Divulgação do estudo de Silva JL e colaboradores, Breast Cancer Research and Treatment, 2024, noticiada pela Agência Brasil em junho de 2024

Repare que nenhuma linha contradiz a outra. Todas apontam na mesma direção, e cada uma responde a uma pergunta diferente.

De onde veio o "três vezes mais"

A onda de matérias de junho de 2024 nasceu do estudo de Silva JL, Albuquerque LZ, Rodrigues MES, Thuler LCS e Melo AC, publicado naquele ano na Breast Cancer Research and Treatment. O valor citado na cobertura é 3,83 vezes, não três redondo. E o que ele compara são taxas de mortalidade registradas em bases populacionais, não sobrevida entre mulheres já tratadas.

O primeiro autor, Dr. Jessé Lopes da Silva, oncologista clínico e membro do Comitê de Diversidade da SBOC, resumiu assim o achado, segundo a divulgação noticiada pela Agência Brasil em junho de 2024:

"A elevada taxa de mortalidade se relaciona a fatores socioeconômicos que resultam em diagnósticos tardios e dificultam o acesso a tratamentos adequados."

Por que a magnitude muda conforme a base de dados

Aqui entra a parte que quase nunca aparece nas matérias, e que muda a leitura de todas as outras. Taxas por raça e cor em registros brasileiros dependem do preenchimento do quesito raça ou cor. Esse campo sofre com sub-registro e com inconsistência de preenchimento entre serviços.

E há um segundo ponto. A classificação usada nesses registros é autodeclarada. Ela descreve uma posição social, não uma medida biológica. O próprio INCA trata a distinção entre ancestralidade genética e autodeclaração de cor da pele como questão em aberto dentro do estudo Mantus (INCA, 2024), o que ancora a ressalva em fonte oficial.

A consequência é dupla. Nenhum desses números é falso, e nenhum deles é a última palavra sobre a magnitude exata. O que sustenta o argumento não é um número isolado, é a convergência do conjunto.

Mulheres negras não têm mais câncer de mama: a incidência registrada é maior entre mulheres brancas

A incidência mediana registrada de câncer de mama foi de 101,3 por 100 mil em mulheres brancas contra 59,7 por 100 mil em mulheres negras. O dado vem da análise de 70.896 casos novos de 13 registros brasileiros de base populacional entre 2010 e 2015 (Silva JL e colaboradores, Breast Cancer Research and Treatment, 2024). Ocorrência registrada menor, desfecho pior.

Menos casos registrados não significa menos doença. Significa menos doença registrada. Onde há menos exame de mamografia disponível e realizado, há menos diagnóstico. E onde há menos diagnóstico há menos caso no registro. O número de incidência é, em parte, um retrato de quanto se procura.

O mesmo estudo analisou 271.002 óbitos e encontrou variação anual média da mortalidade de mais 2,3% entre mulheres negras contra mais 0,6% entre mulheres brancas, ambas com p menor que 0,001. A mortalidade sobe quase quatro vezes mais rápido em um grupo do que no outro. A incidência geral, no mesmo período, teve variação anual de menos 1,2%, sem significância estatística (p igual a 0,474).

Um sistema que registra menos casos em um grupo e conta mortes crescendo mais rápido nesse mesmo grupo está dizendo algo sobre acesso, não sobre biologia.

Incidência, mortalidade e sobrevida: três medidas que a cobertura costuma misturar

  • Incidência: quantos casos novos são diagnosticados e registrados em uma população em um período.
  • Mortalidade: quantas mortes pela doença ocorrem em uma população em um período.
  • Sobrevida: entre as mulheres que foram diagnosticadas, quantas seguem vivas depois de um tempo definido, normalmente cinco anos.

São três perguntas diferentes. Misturá-las é exatamente o que produz manchete confusa e conversa de família com dado errado.

Por que o desfecho é pior: o diagnóstico chega mais tarde

Entre as mulheres negras, 60,1% foram diagnosticadas em estágio avançado, contra 50,6% das mulheres brancas (Silva JL e colaboradores, Breast Cancer Research and Treatment, 2024, p menor que 0,001). Quanto mais tarde o diagnóstico, menores as opções de tratamento e menor a sobrevida esperada. É aqui que a diferença começa a se formar.

O mesmo estudo registrou que as mulheres negras da amostra tinham maior probabilidade de viver em áreas menos desenvolvidas, com menor escolaridade e sem companheiro. São associações documentadas em uma população, e é assim que devem ser lidas: como descrição de um contexto social, nunca como julgamento sobre quem está lendo.

Do lado do acesso ao exame, o INCA registra que mulheres brancas realizam mais mamografias do que mulheres pretas e pardas, com desvantagem em praticamente todas as regiões do país. Quem não faz o exame de rastreamento tende a chegar ao serviço já com sinal perceptível, e sinal perceptível costuma significar estágio mais avançado.

Se você já tem exame marcado, veja o que levar e como se preparar no nosso guia de preparo para a mamografia.

Há ainda um ponto que desmonta a leitura fatalista sem atacar o sistema público. A Dra. Marília Sampaio Lemos, em artigo publicado pelo GBECAM em 11 de junho de 2025, sustenta que sistemas universais de saúde também reproduzem iniquidade racial. Ter um sistema universal não isenta o país da desigualdade que existe dentro dele, e reconhecer isso é o que permite corrigir.

A diferença não começa e não termina na porta de entrada

Volte por um instante à coorte do Lancet Global Health. Ela mostra que a desvantagem persiste depois do início do tratamento, entre mulheres que já estavam dentro do sistema. Isso desloca o problema: não é só chegar, é também o percurso.

Tempo até conseguir o exame. Tempo até o laudo do exame de imagem. Tempo até a biópsia e seu resultado. Tempo até a primeira sessão de tratamento. Cada intervalo desses é um ponto onde a desigualdade pode se acumular, e é justamente sobre esses intervalos que a legislação brasileira já dá à paciente um instrumento de cobrança, como você vai ver adiante.

Câncer de mama triplo negativo em mulheres negras: uma pergunta ainda em investigação

O câncer de mama triplo negativo, subtipo com menos opções de terapia dirigida e prognóstico mais reservado, é mais frequente em mulheres negras. Por que isso acontece ainda não está respondido, e o INCA mantém desde 2022 um estudo dedicado a investigar (INCA, 2024).

Triplo negativo é o nome dado ao tumor que não expressa receptor de estrogênio, receptor de progesterona nem HER2. Como as terapias dirigidas a esses três alvos dependem justamente da presença deles, o arsenal disponível é mais restrito. O tratamento costuma se apoiar em outras estratégias, definidas caso a caso pela equipe assistente.

O estudo do INCA se chama Mantus, Mulheres Negras e Câncer de Mama Triplo Negativo: Desafios e Soluções para o SUS, coordenado pela pesquisadora Sheila Coelho Soares Lima. Ele investiga alterações moleculares específicas, o peso da ancestralidade genética comparada à autodeclaração de cor da pele, e o efeito do menor acesso a serviços de saúde e do diagnóstico tardio sobre a agressividade observada.

A frase que fecha esta seção precisa ser dita com clareza: raça, no dado brasileiro, é uma categoria social, não uma medida biológica. Ser uma mulher negra não determina que tipo de tumor alguém terá, e nenhuma leitora deve terminar este texto achando que existe um câncer pior esperando por ela.

Um dado internacional ajuda a entender por quê. Números norte-americanos citados pelo GBECAM (TORRES e colaboradores, 2024) indicam mortalidade maior entre mulheres negras de 50% em tumores luminais, 34% em HER2 positivo e 17% em triplo negativo. O padrão é contraintuitivo e revelador: a desvantagem é maior justamente nos subtipos de melhor prognóstico, ou seja, exatamente onde o tratamento oportuno faria mais diferença.

Quem tem histórico familiar relevante pode conversar sobre isso em uma consulta com geneticista ou em consulta com oncologista, conforme a indicação médica.

O que os números do Maranhão dizem sobre acesso ao diagnóstico

O Maranhão está entre os estados com maior proporção de população autodeclarada preta e parda do país, segundo o Censo 2022 do IBGE. E a taxa de incidência registrada de câncer de mama no estado é bem inferior à média nacional estimada pelo INCA.

Incidência registrada baixa, em um estado com essas características, é mais indício de sub-registro e de menor acesso ao diagnóstico do que de menos doença. É a versão local e concreta da ressalva metodológica que já apareceu neste texto. Onde há menos exame, há menos caso registrado.

Uma taxa baixa de incidência pode ser uma boa notícia epidemiológica em um lugar com rastreamento bem organizado, e um alerta em um lugar onde o exame chega a menos gente.

Para quem mora em São Luís e na região, isso significa que o assunto não é uma estatística nacional distante. Ele é o bairro, é a fila da unidade básica, é o tempo entre o pedido do exame e a data marcada.

A leitura útil desse quadro não é de denúncia nem de resignação. É entender que a variável mais acionável, individual e coletivamente, continua sendo o acesso ao exame na idade certa e o acompanhamento do que foi encontrado.

Disso sai uma consequência direta. Se a incidência registrada é baixa em parte porque o exame chega a menos mulheres, então cada mamografia de rastreamento realizada dentro do intervalo recomendado tem valor duplo: para a mulher que faz, e para a qualidade do dado que orienta a política pública da própria região.

O que mudou na recomendação de mamografia em 2025

Em 24 de setembro de 2025 o Ministério da Saúde ampliou a diretriz de rastreamento do câncer de mama. Passou a prever mamografia entre 40 e 49 anos por decisão compartilhada entre paciente e médico, e mantém o rastreamento sistemático bienal dos 50 aos 74 anos, faixa que antes terminava aos 69 anos.

Faixa etária ou entidade Recomendação Quem e quando
40 a 49 anos Mamografia por decisão compartilhada entre paciente e médico, não rastreamento populacional automático Ministério da Saúde, 24/09/2025
50 a 74 anos Rastreamento bienal Ministério da Saúde, 24/09/2025
Acima de 74 anos Avaliar expectativa de vida e comorbidades Ministério da Saúde, 24/09/2025
A partir dos 40 anos Mamografia anual para todas as mulheres SBM, CBR e FEBRASGO, posição mantida

As duas posições convivem hoje, e é justo apresentar as duas. SBM, CBR e FEBRASGO recomendam início aos 40 anos com periodicidade anual. O Ministério da Saúde abriu a porta dos 40 aos 49 anos por decisão compartilhada e mantém o rastreamento organizado bienal a partir dos 50.

No consultório, isso significa que a conversa entre paciente e médico ganhou peso formal na faixa dos 40. É nela que entram histórico, fatores de risco e preferências informadas.

Mulher negra precisa começar o rastreamento mais cedo?

As diretrizes brasileiras não diferenciam a idade de início do rastreamento por raça ou cor. O que antecipa o início é histórico familiar e fatores de risco individuais. Entre 40 e 49 anos a decisão é compartilhada entre paciente e médico, conforme a diretriz do Ministério da Saúde de setembro de 2025.

Dizer o contrário seria inventar uma recomendação que não existe. O que a evidência sustenta é outra coisa, e é mais acionável: a desvantagem documentada está no acesso e no tempo, não em uma idade de partida diferente. Cada caso, ainda assim, exige avaliação médica individual, e é isso que uma consulta com mastologista resolve.

Quando o histórico familiar muda a conversa

Histórico familiar de câncer de mama ou de ovário, casos diagnosticados em idade jovem e casos em homens da família são motivos para uma avaliação individualizada. Essa avaliação pode incluir aconselhamento genético e investigação de mutações em genes como BRCA1 e BRCA2, sempre sob indicação médica e nunca como protocolo automático.

Se há casos assim na sua família, leve essa informação organizada à consulta, com o grau de parentesco e a idade de cada diagnóstico. É desse mapa que sai a decisão sobre encaminhar ou não para aconselhamento genético.

Mama densa e exames complementares

Mamas densas têm mais tecido fibroglandular e menos gordura. Nelas a mamografia perde sensibilidade, porque tecido denso e lesão aparecem em tons parecidos na imagem. Nesses casos o médico pode indicar a ultrassonografia mamária como exame complementar.

Complementar é a palavra exata. O ultrassom acrescenta informação onde a mamografia enxerga menos, e não a substitui como método de rastreamento. A densidade mamária costuma constar no próprio laudo do exame, e é um bom assunto para levar à consulta seguinte.

Os prazos que a lei garante, e o que fazer quando o exame demora

Duas leis federais fixam prazos no SUS. A Lei 13.896/2019 determina que, quando a hipótese diagnóstica principal é de neoplasia maligna, os exames necessários para elucidação sejam realizados em até 30 dias, mediante solicitação fundamentada do médico responsável. A Lei 12.732/2012 garante o início do primeiro tratamento em até 60 dias contados do dia em que o diagnóstico é firmado em laudo patológico.

A Lei 12.732, de 22 de novembro de 2012, ficou conhecida como Lei dos 60 Dias. Ela considera tratamento iniciado a cirurgia, ou o início da radioterapia, ou o início da quimioterapia, conforme a necessidade terapêutica de cada caso. A Lei 13.896, de 30 de outubro de 2019, alterou esse texto e acrescentou o prazo de 30 dias para os exames de elucidação diagnóstica.

Saber disso muda a posição de quem espera. A contagem do prazo depende de um documento com data em mãos, e é por aí que a orientação abaixo começa.

O que a equipe da Preciore orienta na prática

  • Guardar a via da solicitação do exame com a data, porque é dela que o prazo passa a contar.
  • Pedir que a hipótese diagnóstica esteja escrita no pedido, porque é o que aciona o prazo de 30 dias da Lei 13.896/2019.
  • Avisar na recepção quando há nódulo palpável ou alteração recente, porque isso muda a natureza do exame, de rastreamento para investigação.
  • Levar exames anteriores e laudos na primeira consulta, porque a comparação com a imagem prévia muda a leitura do exame novo.
  • Perguntar o prazo de laudo no momento do agendamento, para conseguir se organizar com as datas seguintes.
  • Se o prazo legal não for cumprido, procurar a ouvidoria do SUS e a secretaria municipal de saúde, que são os canais formais de registro.

Ficou dúvida sobre documentos, pedidos ou preparo? A equipe pode orientar pelo canal de contato. E fica a ressalva que atravessa todo este texto: cada caso exige avaliação médica individual, e nenhuma orientação de artigo substitui uma consulta.

Perguntas frequentes

É verdade que o câncer de mama mata 3 vezes mais mulheres negras no Brasil?

Depende do que se está medindo. O valor de 3,83 vezes, citado na divulgação do estudo de Silva JL e colaboradores (*Breast Cancer Research and Treatment*, 2024) noticiada pela Agência Brasil, compara taxas de mortalidade em registros de base populacional, e não é uma razão de sobrevida. O dado metodologicamente mais limpo é outro: 64% contra 74% de sobrevida em cinco anos entre mulheres que já iniciaram tratamento, segundo coorte nacional publicada em *The Lancet Global Health* em 2024.

Mulheres negras têm mais câncer de mama do que mulheres brancas?

Não segundo os registros brasileiros. A incidência mediana foi de 101,3 por 100 mil em mulheres brancas contra 59,7 por 100 mil em mulheres negras (Silva JL e colaboradores, 2024). O que difere é o desfecho, não a ocorrência registrada. Fica a ressalva: incidência registrada menor pode refletir menos acesso ao diagnóstico, não menos doença.

Mudou a idade recomendada para começar a mamografia no Brasil?

Sim. Em 24 de setembro de 2025 o Ministério da Saúde passou a prever mamografia entre 40 e 49 anos por decisão compartilhada entre paciente e médico, e rastreamento bienal dos 50 aos 74 anos. SBM, CBR e FEBRASGO mantêm a recomendação de início aos 40 anos com periodicidade anual.

Mulher negra precisa começar o rastreamento mais cedo?

As diretrizes brasileiras não diferenciam a idade de início do rastreamento por raça ou cor. O que antecipa o início é histórico familiar e fatores de risco individuais, avaliados caso a caso. Entre 40 e 49 anos, a decisão é compartilhada entre paciente e médico, conforme a diretriz do Ministério da Saúde de setembro de 2025.

Por que o câncer de mama é diagnosticado mais tarde em mulheres negras?

Porque o acesso ao exame e ao seguimento é desigual. O estudo de Silva JL e colaboradores (2024) registrou 60,1% de diagnósticos em estágio avançado entre mulheres negras contra 50,6% entre mulheres brancas, e associou o quadro a marcadores sociais como moradia em áreas menos desenvolvidas e menor escolaridade. A coorte publicada em *The Lancet Global Health* (2024) mostra ainda que a desvantagem continua depois do início do tratamento, o que aponta também para o tempo de percurso dentro do sistema.

O que é câncer de mama triplo negativo e por que ele é mais frequente em mulheres negras?

Triplo negativo é o tumor que não expressa receptor de estrogênio, receptor de progesterona nem HER2, o que reduz as opções de terapia dirigida. Ele é mais frequente em mulheres negras, e a razão ainda está em investigação. O INCA mantém desde 2022 o estudo Mantus, que avalia fatores moleculares, ancestralidade genética, autodeclaração de cor da pele e acesso a serviços de saúde (INCA, 2024).

O autoexame das mamas substitui a mamografia?

Não. O autoconhecimento do corpo ajuda a perceber mudanças e a procurar avaliação mais cedo, mas não substitui o exame de imagem, porque a mamografia identifica alterações antes de qualquer sinal perceptível ao toque. Qualquer alteração percebida deve ser avaliada por um médico.

Como conseguir mamografia pelo SUS e o que fazer quando o exame demora?

O caminho começa na unidade básica de saúde, com a solicitação do médico. Quando a hipótese diagnóstica principal é de neoplasia maligna, a Lei 13.896/2019 garante os exames de elucidação em até 30 dias, e a Lei 12.732/2012 garante o início do primeiro tratamento em até 60 dias após o laudo. Guarde a via da solicitação com a data e, se o prazo não for cumprido, procure a ouvidoria do SUS e a secretaria municipal de saúde, que são os canais formais de registro. ---

Resumo

A diferença existe e está documentada. Sobrevida em cinco anos 10 pontos percentuais menor, mortalidade subindo quase quatro vezes mais rápido, e mais diagnósticos em estágio avançado.

Nada disso descreve destino biológico. O que os estudos brasileiros sobre câncer de mama em mulheres negras descrevem é uma diferença de acesso ao exame e de tempo até o diagnóstico. O caminho que sai daí tem dois passos: rastreamento na idade recomendada, conversado com o médico, e acompanhamento dos prazos que a lei já garante.

A leitura útil desse conjunto de números não termina em resignação. O que falha aqui é o percurso, e percurso é coisa que se acompanha, se pergunta e se corrige, no consultório e na política pública.

Quanto mais mulheres passarem pelo rastreamento e forem contadas nos registros, mais preciso fica o próprio dado que orienta a decisão da sua região.

Revisão técnica: Dra. Raquel Aranha, CRM-MA 5005, RQE 2464, mastologista e responsável técnica da Clínica Preciore. Conheça os profissionais da Preciore.

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Cada caso exige avaliação individual.

Para quem está se organizando para o exame, a clínica mantém a lista de convênios atendidos e o canal de agendamento.

Referências

  • Lemos LLP, Souza MC, Guerra Junior AA, Piazza T, Araújo RM, Cherchiglia ML. The Lancet Global Health, 2024.
  • Silva JL, Albuquerque LZ, Rodrigues MES, Thuler LCS, Melo AC. Breast Cancer Research and Treatment, 2024.
  • INCA, Instituto Nacional de Câncer. Dados de mortalidade e acesso à mamografia e estudo Mantus, 2024.
  • Ministério da Saúde. Atualização da diretriz de rastreamento do câncer de mama, 24 de setembro de 2025.
  • FEBRASGO. Divulgação da atualização da diretriz, 24 de setembro de 2025.
  • IBGE. Censo Demográfico 2022.
  • Brasil. Lei 12.732, de 22 de novembro de 2012, e Lei 13.896, de 30 de outubro de 2019.
  • Agência Brasil. Cobertura de junho de 2024 sobre o estudo de Silva JL e colaboradores.
  • GBECAM. Artigo da Dra. Marília Sampaio Lemos, 11 de junho de 2025, e dados norte-americanos citados (TORRES e colaboradores, 2024).

Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso?

A equipe da Preciore atende em São Luís, no Jardim Renascença, com consulta e exames no mesmo endereço.

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