Reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama? O que se sabe
O risco depende do tipo de hormônio, do tempo de uso e de cada mulher. Veja o que mostram o estudo WHI e a maior análise mundial, sem recomendar nem desaconselhar tratamento.
Marcio MoreiraEstrategista de conteúdo e SEOPublicado em 09 de outubro de 2026
Reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama? O que se sabe
Neste artigo você vai descobrir:
- A resposta direta: o que a ciência diz sobre terapia hormonal e risco de câncer de mama
- Por que estrogênio isolado e estrogênio com progestágeno não têm o mesmo risco
- Como o tempo de uso e o momento de parar entram na conta, em números
- Por que a decisão é individual e quais perguntas levar à consulta
A resposta curta: depende do tipo de hormônio, do tempo de uso e de cada mulher
Algumas formas de terapia hormonal da menopausa, a chamada reposição hormonal, estão associadas a um aumento do risco de câncer de mama. O tamanho desse aumento depende do tipo de hormônio, do tempo de uso e de características de cada mulher. A combinação de estrogênio com progestágeno mostra risco maior do que o estrogênio isolado, e o risco cresce com os anos de uso (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019). O INCA inclui a terapia de reposição hormonal pós-menopausa com estrogênio e progesterona, especialmente por mais de 5 anos, entre os fatores de risco para o câncer de mama (INCA, 2025).
Este texto explica o que os estudos mostram, sem recomendar nem desaconselhar tratamento. A decisão de usar ou não a terapia hormonal é individual e cabe a você e à sua médica.
Estrogênio isolado e combinado: o que o estudo WHI encontrou
O Women's Health Initiative (WHI) reuniu dois ensaios clínicos randomizados, com 27.347 mulheres na pós-menopausa. Neles, a combinação de estrogênio com progestágeno foi testada em mulheres com útero, e o estrogênio isolado em mulheres que já tinham retirado o útero (Chlebowski e colaboradores, 2020).
- Combinado. O ensaio foi interrompido em 2002, com cerca de 5 anos de seguimento, porque o câncer de mama invasivo passou do limite de segurança previsto. O excesso estimado foi de 8 casos de câncer de mama invasivo a mais por 10 mil mulheres por ano de uso (Rossouw e colaboradores, 2002). Com mais de 20 anos de acompanhamento, quem havia usado a combinação teve incidência maior de câncer de mama do que o grupo placebo (razão de risco 1,28), sem diferença significativa na mortalidade por câncer de mama (Chlebowski e colaboradores, 2020).
- Estrogênio isolado. No mesmo acompanhamento de mais de 20 anos, as mulheres sem útero que usaram estrogênio isolado tiveram incidência menor de câncer de mama (razão de risco 0,78) e menos mortes por câncer de mama (razão de risco 0,60) do que o grupo placebo (Chlebowski e colaboradores, 2020).
Vale ler esses números com contexto: as participantes tinham em média 63 anos ao entrar no estudo, e o uso durou em média 5,6 anos (combinado) e 7,2 anos (estrogênio isolado) (Chlebowski e colaboradores, 2020). Além disso, os resultados do WHI se referem aos preparados testados ali, e não a todas as formas de terapia hormonal.
O que a maior análise mundial mostrou sobre o tempo de uso
Em 2019, o Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer reuniu dados de estudos observacionais prospectivos de vários países, nos quais 108.647 mulheres desenvolveram câncer de mama após a menopausa. Toda forma de terapia hormonal, exceto os estrogênios vaginais, esteve associada a algum excesso de risco, que aumentava com a duração do uso e era maior com a combinação do que com o estrogênio isolado (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019).
| Tipo, em uso atual | Risco relativo nos anos 1 a 4 | Risco relativo nos anos 5 a 14 |
|---|---|---|
| Estrogênio com progestágeno | 1,60 | 2,08 |
| Estrogênio isolado | 1,17 | 1,33 |
O risco relativo compara usuárias com mulheres que nunca usaram (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019). Note que, para o estrogênio isolado, esse tipo de estudo e o ensaio do WHI não apontam na mesma direção. Por isso a pergunta do título não cabe num "sim" ou "não" único.
Em números absolutos, a mesma análise estimou, para mulheres de peso médio em países desenvolvidos que começam aos 50 anos e usam por 5 anos, um caso a mais de câncer de mama entre os 50 e os 69 anos para cada 50 usuárias de estrogênio com progestágeno diário, para cada 70 usuárias de estrogênio com progestágeno intermitente e para cada 200 usuárias de estrogênio isolado. Com 10 anos de uso, o excesso é cerca do dobro. Esses valores valem se as associações forem em grande parte causais (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019).
Sobre o que acontece ao parar: parte do excesso de risco persistiu por mais de 10 anos, e sua dimensão dependia do tempo de uso anterior, com pouco excesso após menos de 1 ano de uso (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019).
O que a NAMS diz sobre decidir
A posição de 2022 da North American Menopause Society (NAMS) afirma que os riscos da terapia hormonal variam conforme o tipo, a dose, o tempo de uso, a via de administração, o momento de início e o uso ou não de progestágeno. A sociedade também afirma que o tratamento deve ser individualizado com base na melhor evidência disponível, com reavaliação periódica de benefícios e riscos (NAMS, 2022).
Em outras palavras, o risco para a mama é uma peça da conta, e ela é pesada junto com os sintomas da mulher e com outros riscos e benefícios da terapia. Quem faz esse cálculo com você é a médica que acompanha o seu caso.
Quem já teve câncer de mama: uma situação à parte
Em abril de 2025, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) esclareceu que não existem dados suficientes que comprovem a segurança da terapia hormonal em mulheres com diagnóstico de câncer de mama, e reafirmou que o câncer de mama continua sendo considerado contraindicação. A entidade orienta cuidado especializado e terapias não hormonais para aliviar os sintomas dessas mulheres (Febrasgo, 2025). Se esse é o seu caso, a conversa é com a mastologista e com a oncologista.
Reposição hormonal e câncer de mama: como conversar com a médica
A terapia hormonal é só um dos fatores que entram no risco de câncer de mama. Idade, história reprodutiva, bebida alcoólica, sobrepeso, inatividade física e predisposição hereditária também pesam (INCA, 2025). Para conhecer os demais fatores, veja fatores de risco do câncer de mama e câncer de mama hereditário.
Perguntas úteis para levar à consulta:
- Qual é o meu risco de câncer de mama e o que o define?
- Que tipos de terapia hormonal existem e o que os estudos mostram sobre cada um?
- Por quanto tempo, se for o caso, e como será a reavaliação periódica?
- Como fica o acompanhamento das mamas e a mamografia no meu caso?
- Existem opções sem hormônio para os meus sintomas?
A mamografia segue as recomendações por idade e risco: para mulheres de risco habitual, o rastreamento anual vai dos 40 aos 74 anos (Urban e colaboradores, 2023). Na Preciore, clínica de mastologia e diagnóstico por imagem em São Luís, a consulta com mastologista começa pela sua história, incluindo o histórico hormonal e reprodutivo e os antecedentes da família, e a mamografia pode ser feita no mesmo endereço. Este conteúdo é informativo, não indica nem contraindica tratamento e não substitui a avaliação médica.
Fontes consultadas:
- Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Type and timing of menopausal hormone therapy and breast cancer risk: individual participant meta-analysis of the worldwide epidemiological evidence. Lancet, 2019. DOI 10.1016/S0140-6736(19)31709-X. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31474332/
- Chlebowski RT e colaboradores. Association of menopausal hormone therapy with breast cancer incidence and mortality during long-term follow-up of the Women's Health Initiative randomized clinical trials. JAMA, 2020. DOI 10.1001/jama.2020.9482. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32721007/
- Rossouw JE e colaboradores. Risks and benefits of estrogen plus progestin in healthy postmenopausal women: principal results from the Women's Health Initiative randomized controlled trial. JAMA, 2002. DOI 10.1001/jama.288.3.321. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12117397/
- The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2022. DOI 10.1097/GME.0000000000002028. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35797481/
- Fatores de risco, controle do câncer de mama. INCA, atualizado em 1º de outubro de 2025. https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/gestor-e-profissional-de-saude/controle-do-cancer-de-mama/fatores-de-risco
- FEBRASGO esclarece: câncer de mama e terapia hormonal. Febrasgo, 28 de abril de 2025. https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/2084-febrasgo-esclarece-cancer-de-mama-e-terapia-hormonal
- Urban LABD e colaboradores. Recomendações do CBR, da SBM e da Febrasgo para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiologia Brasileira, 2023. DOI 10.1590/0100-3984.2023.0064. https://cbr.org.br/wp-content/uploads/2023/09/Recomendacoes-do-Colegio.pdf
Perguntas frequentes
Reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama?
Algumas formas, sim. O excesso de risco é maior com estrogênio combinado a progestágeno do que com estrogênio isolado e cresce com o tempo de uso (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, Lancet, 2019). A decisão sobre usar ou não a terapia é individual, com a médica.
Reposição hormonal só de estrogênio dá câncer de mama?
Os estudos não apontam na mesma direção. Em análises observacionais, houve algum excesso de risco com estrogênio isolado (Lancet, 2019). No ensaio randomizado do WHI, mulheres sem útero que usaram estrogênio isolado tiveram menos câncer de mama (JAMA, 2020). Por isso o caso exige avaliação médica.
Por quanto tempo o risco de câncer de mama continua depois de parar a reposição?
Na análise de 2019, parte do excesso de risco persistiu por mais de 10 anos após parar, e a dimensão dependia do tempo de uso anterior, com pouco excesso após menos de 1 ano de uso (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, Lancet, 2019).
Quantos casos de câncer de mama a reposição hormonal causa?
Estimativa da análise de 2019, se as associações forem causais: 5 anos de uso a partir dos 50 anos correspondem a cerca de 1 caso a mais para cada 50 usuárias de estrogênio com progestágeno diário e 1 para cada 200 de estrogênio isolado, entre os 50 e 69 anos. Com 10 anos, o excesso é cerca do dobro.
Quem já teve câncer de mama pode fazer reposição hormonal?
A Febrasgo esclareceu, em abril de 2025, que não há dados suficientes que comprovem a segurança da terapia hormonal nessas mulheres e que o câncer de mama segue como contraindicação, com orientação de terapias não hormonais e cuidado especializado. A conversa é com a mastologista e a oncologista.
Quem usa terapia hormonal precisa fazer mamografia?
Para mulheres de risco habitual, as recomendações do CBR, da SBM e da Febrasgo indicam mamografia anual dos 40 aos 74 anos (Urban e colaboradores, 2023). Como a terapia hormonal entra no seu acompanhamento deve ser definido com a médica, na reavaliação periódica descrita pela NAMS (2022).
Resumo
A terapia hormonal da menopausa está associada a algum aumento do risco de câncer de mama, maior com estrogênio combinado a progestágeno do que com estrogênio isolado, e crescente com o tempo de uso (Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer, 2019). O ensaio WHI e as análises observacionais não coincidem quanto ao estrogênio isolado, por isso não há resposta única.
A NAMS lembra que o tratamento deve ser individualizado e reavaliado com periodicidade (NAMS, 2022). Leve suas dúvidas e o seu histórico pessoal e familiar para uma consulta com a médica que acompanha você.
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